Guia · Art nouveau · 1908
O Beijo de Klimt: o ouro real, a Viena de 1900 e o abraço antes da queda
Belvedere Superior, Viena · 1908 · Leitura de 6 minutos

Neste guia
Dois corpos ajoelhados num campo de flores, envolvidos por um manto que parece um casulo de ouro. Ele beija a face dela. Ela fecha os olhos. Em volta de tudo, ouro de verdade, folha de metal aplicada com pincel sobre a tela. Gustav Klimt pintou O Beijo entre 1907 e 1908, e a obra virou o rosto de Viena.
Poucos quadros conseguem parecer, ao mesmo tempo, uma joia e uma despedida. O Beijo é os dois. É o ápice do chamado Período Dourado de Klimt e, sem que ninguém soubesse na época, o retrato de uma cidade brilhante prestes a desaparecer na Primeira Guerra.
Este guia reconstrói a obra: o que você vê na tela, por que Klimt usou ouro real, que Viena era aquela de 1908 e por que o casal continua brilhando mais de cem anos depois.
O que você vê na tela
A tela é quadrada, 180 por 180 centímetros. No centro, um casal ajoelhado se abraça. O homem está atrás, um pouco acima, e curva a cabeça para beijar a face da mulher. Ela inclina o pescoço e fecha os olhos, numa expressão de êxtase contido.
Repare nas mãos dela. Seguram a mão dele com firmeza próxima do desespero, cada dedo dobrado num ângulo deliberado. É um abraço tenso, não relaxado, como se ela não quisesse deixar o instante passar.
Os dois estão cobertos por um manto dourado sem volume real, uma superfície plana e ornamentada. No lado do homem, o tecido tem retângulos pretos e brancos, formas rígidas. No lado da mulher, círculos, ondas e flores, formas curvas. O masculino angular, o feminino redondo, ambos sob o mesmo ouro.
Os pés do casal repousam sobre um prado de flores miúdas, vermelhas, brancas e azuis. A borda do gramado termina exatamente onde os dedos dos pés dela tocam a beirada. Um passo a mais, e ela cairia no vazio dourado. O detalhe não é acidente.
A história por trás da obra
Gustav Klimt nasceu em Viena em 1862, filho de um gravador em ouro. A intimidade com o metal veio da oficina do pai. Em 1897 ajudou a fundar a Secessão Vienense, movimento que rompeu com a academia tradicional. O lema do grupo: "A cada época sua arte. A cada arte sua liberdade."
O Beijo pertence ao Período Dourado de Klimt, que durou de 1903 a 1909. A virada para o ouro nasceu de uma viagem a Ravena, na Itália, em 1903. Lá, Klimt estudou os mosaicos bizantinos da Basílica de San Vitale, com as túnicas douradas dos imperadores Justiniano e Teodora.
Quem é o casal? A identidade é discutida há mais de cem anos. A hipótese mais aceita aponta Emilie Flöge, estilista, dona de boutique e companheira intelectual de Klimt por quase três décadas. Os dois nunca casaram, mas foi a relação mais longa e estável da vida do pintor.
"Uma única forma de amor sobrevive a tudo, a do êxtase imediato, e talvez seja a única coisa que valha a pena pintar." Gustav Klimt, em conversa registrada por Berta Zuckerkandl, 1907.
Linha do tempo de O Beijo
- 1862Gustav Klimt nasce em Viena, filho de um gravador em ouro que lhe passa a familiaridade com o metal.
- 1897Klimt ajuda a fundar a Secessão Vienense, abrindo espaço para a arte moderna na Áustria.
- 1903Uma viagem a Ravena e os mosaicos bizantinos de San Vitale inspiram o uso do ouro. Começa o Período Dourado.
- 1907 a 1908Klimt pinta O Beijo com folha de ouro de 23 quilates, no auge da fase dourada.
- 1908A obra é exibida na Kunstschau de Viena e comprada pelo governo austríaco por 25.000 coroas, o maior valor pago a um artista vivo no país até então.
- 1918Klimt morre no mesmo ano em que o Império Austro-Húngaro se desfaz, encerrando a Viena dourada.
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O ouro que muda de cor
O que separa O Beijo de qualquer pôster é o material. Klimt aplicou folhas reais de ouro de 23 quilates, em camadas finas, coladas sobre a tela. Não é tinta cor de ouro. É metal.
E ele não deixou a superfície uniforme. Variou os tons, criou granulações, áreas mais ricas e áreas mais sutis. O resultado é que a luz da sala bate no relevo do metal e faz o quadro mudar de brilho conforme você anda diante dele. A obra reage a quem olha.
A técnica veio direto dos mosaicos de Ravena, mas Klimt a levou para um tema íntimo, o abraço de um casal, e não para a glória de um imperador. Pegou a linguagem sagrada do ouro bizantino e a usou para consagrar o amor humano.
Por que a obra importa
O Beijo virou estampa de bolsa, capa de caderno, pôster de quarto. Foi reproduzido até o cansaço. Mas diante do original, no Belvedere de Viena, o efeito é outro. O ouro vibra, o casal pulsa, e a borda do prado lembra que falta um passo para o abismo.
A Viena de 1908 era uma cidade às vésperas do colapso. Freud publicava sobre o inconsciente, Schoenberg compunha música atonal, Mahler regia a ópera. Klimt estava no centro do fervor. Em poucos anos, a Primeira Guerra varreria tudo.
O que Klimt pintou não é só um beijo. É a tentativa de fixar um instante de plenitude antes que o mundo desabe. Ele embrulhou o abraço em ouro real, como quem guarda uma relíquia para o futuro. Mais de cem anos depois, o casulo ainda brilha.
Perguntas frequentes
Onde está O Beijo de Klimt?
No Belvedere Superior, em Viena, na Áustria, sala 9. O governo austríaco comprou a obra em 1908, ainda na primeira exposição, e ela nunca deixou o acervo público da cidade desde então.
O ouro de O Beijo é de verdade?
Sim. Klimt aplicou folhas reais de ouro de 23 quilates sobre a tela, em camadas finas coladas com adesivo. A técnica veio dos mosaicos bizantinos que ele estudou em Ravena, na Itália, em 1903.
Quem é o casal retratado em O Beijo?
A identidade nunca foi confirmada. A hipótese mais aceita é que a mulher seja Emilie Flöge, companheira intelectual de Klimt por quase trinta anos. Outras leituras defendem que o casal não retrata pessoas reais, e sim uma alegoria do amor universal.
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