Guia · Expressionismo · 1893

O Grito: o que a obra de Munch representa e por que virou o rosto da angústia

Nasjonalmuseet, Oslo · 1893 · Leitura de 6 minutos

O Grito, de Edvard Munch, 1893

Nem todo quadro começa num cavalete. O Grito começou numa frase de diário, escrita por Edvard Munch depois de um passeio ao entardecer, quando o céu ficou vermelho como sangue e ele sentiu um grito infinito atravessar a natureza.

A tela veio depois, como tradução de uma crise que o corpo sentiu antes de a mente entender. Não é o retrato de alguém gritando. É o registro de quem ouviu o grito.

A obra virou uma das imagens mais reconhecidas do planeta, ao lado da Mona Lisa. A figura de mãos no rosto e boca aberta estampa capas, memes e camisetas, quase sempre longe da história real que a criou.

Este guia reconstrói O Grito: o que a tela representa, de onde veio o céu vermelho, quantas versões existem e por que a obra foi roubada, recuperada e roubada de novo.

O que você vê na ponte

Uma figura andrógina, quase sem feições, ocupa o primeiro plano de uma ponte. As mãos comprimem o rosto contra as bochechas, a boca se abre num oval escuro, os olhos se arregalam. O crânio é liso e alongado, uma forma que já quase não é humana.

O corpo ondula na mesma cadência da paisagem. As linhas do céu, da água e da margem não têm arestas: tudo se curva e escorre, como se o mundo tivesse perdido a firmeza.

Atrás da figura, a ponte segue firme em diagonal. Sobre ela, duas silhuetas escuras caminham de costas, indiferentes, rígidas onde o resto se dissolve. O contraste é o recado: elas não ouvem o que a figura da frente ouve.

O grito que Munch ouviu

Edvard Munch nasceu na Noruega em 1863 e cresceu numa família marcada pela doença e pela perda precoce. A infância cercada de luto alimentou uma obra que fez da angústia o tema central, muito antes de a palavra ansiedade entrar no vocabulário comum.

A cena que originou a tela aconteceu num passeio real, no caminho de Ekeberg, nos arredores de Oslo, então chamada Kristiania. Munch parou exausto, encostado numa cerca, e sentiu o grito vir de fora e de dentro ao mesmo tempo.

"Eu andava por um caminho com dois amigos, o sol se punha, o céu de repente virou vermelho como sangue, parei, exausto, e me encostei numa cerca. Senti um grito infinito atravessar a natureza." Edvard Munch, anotação de diário, 1892.

Munch pertence ao expressionismo, movimento que ele ajudou a fundar: a ideia de que a arte deve mostrar o estado interior, não a aparência exterior. O que se vê na tela não é a paisagem, é o que a paisagem fez sentir.

O céu vermelho e o vulcão

Aquele céu incendiado talvez não seja só invenção. Muitos pesquisadores associam as faixas vermelhas ao vulcão Krakatoa, na Indonésia, que explodiu em 1883 e lançou cinzas na atmosfera do planeta inteiro.

Durante meses, os pores do sol no hemisfério norte ganharam tons vermelhos e alaranjados fora do normal, inclusive na Noruega. Munch teria visto céus assim nos anos anteriores ao quadro, e a memória de um vermelho impossível voltou na tela.

A explicação não é consenso, e não precisa ser. Real ou lembrado, o céu vermelho deixou de ser paisagem e virou emoção pura: a cor da aflição que sobe pela garganta.

Linha do tempo de O Grito

  1. 1863Edvard Munch nasce em Løten, na Noruega, numa família marcada por doença e luto.
  2. 1883O vulcão Krakatoa explode e tinge de vermelho os céus do mundo, uma das prováveis fontes da tela.
  3. 1892Munch registra no diário o passeio ao entardecer e o grito que sentiu atravessar a natureza.
  4. 1893Pinta a primeira versão de O Grito, em Kristiania, hoje Oslo.
  5. 1895Cria uma litografia da imagem, que multiplica a cena em preto e branco e ajuda a espalhá-la pelo mundo.
  6. 1994A versão da Galeria Nacional de Oslo é roubada durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Lillehammer e recuperada meses depois.
  7. 2004Uma segunda versão é levada à mão armada do Museu Munch e recuperada em 2006.

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As quatro versões e os roubos

Não existe um único Grito. Munch retomou o motivo várias vezes ao longo da vida, e o resultado são quatro versões principais: duas pinturas, dois pastéis, mais uma litografia que rendeu muitas cópias impressas.

Cada versão mantém a figura, a ponte e o céu incendiado, com pequenas variações de cor e material. Uma delas traz uma frase rabiscada a lápis pelo próprio Munch na moldura: "só pode ter sido pintado por um louco".

As tramas de roubo aumentaram a fama. Em 1994, ladrões entraram pela janela da Galeria Nacional de Oslo e levaram uma versão, deixando um bilhete de agradecimento pela segurança fraca. A polícia a recuperou no mesmo ano.

Dez anos depois, em 2004, homens armados invadiram o Museu Munch em plena luz do dia e arrancaram outra versão da parede diante dos visitantes. A tela ficou desaparecida dois anos, até ser recuperada em 2006, com danos que foram restaurados.

Por que a obra importa

Poucas imagens dizem tanto com tão pouco rosto. A figura de O Grito não tem nome, idade nem gênero definido, e é justamente essa ausência que a torna universal. Qualquer pessoa pode ocupar aquele lugar na ponte.

Munch pintou uma sensação, não um acontecimento. A ansiedade que ele anotou no diário como episódio pessoal virou, na tela, uma linguagem visual que qualquer um reconhece sem precisar de legenda.

E há algo na honestidade do gesto que atravessa o século. Munch não escondeu o pânico atrás de beleza nem de heroísmo. Pintou o instante exato em que o mundo parece grande demais, e deu a esse instante um rosto que a era moderna adotou como seu.

Perguntas frequentes

O que O Grito representa?

A angústia e a ansiedade do ser humano moderno. Munch traduziu numa figura sem rosto uma crise de pânico real que sentiu num passeio ao entardecer. A tela não mostra um acontecimento, mostra uma emoção interior, marca do movimento expressionista.

Quantas versões de O Grito existem?

Quatro versões principais feitas pelo próprio Munch: duas pinturas e dois pastéis, além de uma litografia que gerou várias cópias impressas. Todas mantêm a figura na ponte sob o céu vermelho, com variações de cor e técnica.

Por que o céu de O Grito é vermelho?

Muitos estudiosos ligam o vermelho ardente à erupção do vulcão Krakatoa, em 1883, que deixou os pores do sol anormalmente vermelhos por meses, inclusive na Noruega. Real ou lembrado, o céu deixou de ser paisagem e virou pura emoção na tela.

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